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Meu Testemunho: Das Trevas para a Maravilhosa Luz

A Conversão de São Paulo, Caravaggio, 1601

Se tem uma coisa que um pentecostal verídico ama é o tal do testemunho. Muitas vezes é a porta de entrada para o ofício do ministério. Aliás, além de evangelizar por meio de histórias baseadas em fatos reais, já vi muitas pessoas mudarem de vida ao ouvir uma experiência de terceiros. Eu me incluo nessa estatística.

Não gosto de falar de mim mesmo, contudo senti uma necessidade muito pujante de escrever o meu testemunho e minha trajetória, desde a conversão até o momento presente em que escrevo este texto, numa madrugada de sexta-feira. Prometo ser o mais sucinto possível, até porque minha memória pode falhar em algum aspecto específico, de alguma época de minha vida.

Começarei pela infância. Sempre fui uma criança muito introspectiva, calada e tímida. Isso fez com que eu observasse muito as pessoas ao meu redor e lesse o ambiente com uma sensibilidade extremamente aguçada. Posso dizer que nunca faltou nada: roupa, alimentação boa, boas escolas etc. Entretanto, não tive uma experiência satisfatória nessa fase da vida.

Até os sete anos de idade, morei em diversas casas diferentes. Creio que isso impactou de forma negativa a estabilidade emocional. Somando a isso, cresci em um lar disfuncional, no qual presenciei diversas brigas entre os meus pais (brigas feias mesmo). Lembro-me de um dia em que minha mãe colocou todos os pertences do meu pai para fora de casa.

Deixando a parte familiar um pouco de lado, falarei da minha iniciação na música. Aos cinco anos, já gostava de brincar de baterista. Quebrava as cadeiras de madeira da casa, rasgava o sofá. Até que tive uma brilhante ideia de simular uma bateria improvisada com os instrumentos de percussão que meu pai tinha em casa. Todo final de semana, a família se reunia para fazer churrasco, e sempre tinha um samba raiz para “alegrar” a festa.

Sempre muito curioso e criativo, buscava novos meios de montar uma bateria mais próxima de uma profissional. Até que, aos nove anos, ganhei uma bateria profissional. Mal conseguia alcançar os pedais, tanto do bumbo quanto do hi-hat. Voltando um pouco no tempo, eu, meu irmão Roney, meu primo Igor e meu tio Raphael brincávamos de banda, tocando cover de Mamonas Assassinas.

Todavia, foi também nessa época que conheci uma pessoa da vizinhança que me apresentou alguns vinis (sim, sou dessa época!) que mudaram minha vida da água para o vinho. Lembro-me dos primeiros vinis que ouvi. Eram eles: “Kill ‘Em All“, do Metallica, e “No Prayer for the Dying“, do Iron Maiden. Junto a esses dois vinis, ele me emprestou uma fita VHS que continha o final do show “Live in Tokyo” do Guns N’ Roses e um documentário do Nirvana chamado “Live! Tonight! Sold Out!”.

A partir desse dia, minha vida nunca mais foi a mesma. Prosseguimos a brincadeira de banda, levando-a cada vez mais a sério. Até que, um belo dia, apareceu uma oportunidade de tocar em um restaurante aberto ao público, de última hora. A bateria que eu havia ganhado ainda estava embrulhada para presente de Natal. Tive permissão para utilizá-la naquele dia e, desde então, a brincadeira não parou mais.

Nessa mesma época, comecei a surfar pela influência do meu grande tio Waltinho (Mocotó, para os mais íntimos). Recordo-me de que nos reuníamos para acordar às 5 horas da manhã todos os dias para aproveitar a melhor fase do mar. Foi em meados de 1997 que conhecemos Diego Volpato, que era nosso vizinho. Ele ingressou na banda, dando um upgrade. Começamos a tocar com mais frequência, inclusive na noitada. Contudo, nosso primeiro show foi em um evento organizado pelos surfistas de Guriri, em um local chamado Praiano. Ocorreu em uma tarde, e tinha várias bandas no line-up.

A banda foi tomando uma proporção imensa na cidade e foi batizada como ReadStones. Houve algumas alterações na formação da banda ao longo do tempo, até que se firmaram apenas eu, Roney e Diego. Tocávamos músicas autorais e covers de bandas, como The Offspring, Pennywise, Raimundos, Charlie Brown Jr., entre outras.

Para resumir o testemunho, passei por diversas bandas depois. Contudo, um fato marcante na minha vida foi a época em que conheci um amigo chamado Paulo Ricardo. Nessa altura, já morava em Guriri. Conheci também o Romário e o Carlyle, que eram de São Mateus. Tinha 11 anos nesse tempo. Montamos uma banda de punk rock e hardcore cristã, chamada Open a Smile.

Nunca havia frequentado uma igreja evangélica antes, até que, a convite do meu amigo Paulo Ricardo, comecei a frequentar a Batista Sião, que se situava (creio que até hoje) ao lado da Igreja Velha, em São Mateus. Na verdade, eu ia para poder tocar bateria. Não sabia nada de Bíblia (não que eu saiba hoje), mas eu não entendia o que acontecia naquele ambiente, além de tocar. Revezava a bateria com um irmão que era o triplo do meu tamanho, mas tinha um coração maior ainda. Era apelidado de Dudu.

Não obstante, caí no The Dark Side of the Moon (entendedores entenderão). Aos 12 anos, tivemos a “brilhante ideia” de montar uma banda de black metal. Passávamos semanas em uma casa jogando basquete, comendo pizza e sorvete, e assistindo a Hermes e Renato. Além disso, gravamos canções próprias e covers de bandas como Immortal, Emperor, Dark Funeral, Dimmu Borgir, Marduk e Mayhem. Enfim, a lista é enorme!

Passada essa fase, conheci um jovem chamado Olavo Lima, apelidado de Xaxá. Montamos uma banda de power metal, na mesma pegada: covers e autorais. Tocávamos covers de bandas como Helloween, Gamma Ray, Blind Guardian, Hammerfall etc. Alugamos uma casa para ele e para o guitarrista, conhecido como Cacau, morarem, e a usamos como ponto de ensaio.

Após alguns anos, tive uma banda que marcou profundamente a minha vida e afetou a minha personalidade. Ela se chamava Limbo. Gravamos um EP, em Vitória, na época, e tocamos em diversos locais, inclusive em um festival valendo prêmio, em Piúma. A temática das letras era complexa e reflexiva; no entanto, era um tanto quanto pessimista. Creio que seja devido à influência da filosofia existencialista, que servia como fonte de inspiração. Minha cosmovisão foi ficando cada vez mais sombria e, futuramente, eu vivenciaria tudo o que era cantado.

Por fim, para encerrar este assunto de música, quero iniciar o assunto onde tudo começou. Aos 15 anos de idade, eu via meu irmão sempre rodeado de amigos. Nessa altura, ele já tocava reggae, enquanto eu vivia isolado vendo uma VHS que continha o show completo do Oficina G3, baseado no CD “O Tempo“, e o show do Dream Theater, “Live Scenes from New York“. Além disso, eu tinha uma VHS do Dream Theater, intitulada “5 Years in a LIVEtime“.

Diante disso, eu estava esgotado de viver aquela vida de solitude e queria ser aceito pela turma do reggae. Cresci com uma forte influência de reggae por parte do meu pai. Guardo na minha memória os momentos nos quais ele dirigia e eu estava atrás, na poltrona do carro, ouvindo Edson Gomes, Bob Marley, Peter Tosh, Steel Pulse. Ele tinha alguns vinis que também me marcaram muito, como o “Catch a Fire“, do Bob Marley, e “Mystic Man“, do Peter Tosh.

Como era de se esperar, todos os amigos do meu irmão que ouviam reggae e surfavam faziam uso da Cannabis sativa. Resolvi experimentar e, desde aquele momento, não parei mais. Usava todos os dias! Chegamos a montar uma banda de reggae que se chamava Dedamarelo. E não para por aí! A minha personalidade é a seguinte: quando eu me interesso por algo, vou a fundo naquilo até esgotar minhas forças. Aos 16 anos, já havia experimentado a cocaína. Viciei logo de cara!

Cheguei ao fundo do poço quando conheci o crack logo adiante. Mas, voltando um pouco na história, passei por algumas internações em clínica psiquiátrica devido a alguns surtos psicóticos. A primeira internação foi em uma clínica chamada Travessia, onde só tinha esquizofrênico por todos os lados. Era uma cena de filme de terror! Nessa época, comecei a fumar cigarro. Eu apagava o cigarro no braço e acendia um atrás do outro.

Me diagnosticaram com esquizofrenia. Na segunda clínica, o psiquiatra Dr. Paulo Cesar Aragão me diagnosticou com transtorno bipolar e com vários outros transtornos, menos esquizofrenia. Vivi momentos complicados, em que, por várias vezes, tive que tomar uma injeção chamada “sossega-leão”, depois de ser amarrado em uma camisa de força. Dormia dois dias seguidos e acordava defecado. Pesado! Passei por essa clínica cerca de duas, três vezes.

Voltando ao assunto do crack, houve uma fase em que eu estava só pele e osso. Meu almoço era uma maçã e olhe lá! Trocava tudo o que tinha em casa pela droga. Tinha um guarda-roupa cheio de camisas de times e seleções internacionais originais. Foi-se tudo! Quando acabou o meu, fui para o do meu irmão. Isso gerou um caos dentro de casa. Cheguei a descascar fio de cobre na rua, pois não tinha dinheiro para nada. Até que um dia, ao roubar uma joia de ouro da minha mãe para tentar trocar pela droga, no momento em que fui entrar no ônibus de São Mateus a Guriri, comecei a chorar, voltei para casa e pedi ajuda aos meus pais.

Meu pai trabalhava embarcado pela Petrobras, contudo pediu uma licença provisória para me vigiar e ajudar. Ele entrou em contato com uma clínica em São Bernardo do Campo, em São Paulo, chamada Bezerra de Menezes. Marcamos minha internação. Ele me levou de avião, me deixou na clínica e voltou para o Espírito Santo. Só que tem um porém: me colocaram na ala errada, na de psiquiatria. Vivi uma das piores noites da minha vida. Era uma cela fechada, com uma grade só, cheia de esquizofrênicos uivando. Um pesadelo total!

No dia seguinte, depois de eu dar muito trabalho, me levaram para a ala certa. Começou ali o tratamento. O cenário era lindo por fora e aterrorizante por dentro. A estrutura da clínica era aconchegante e encantadora, mas a situação na qual eu me encontrava naquele momento era de novidade; mas não uma novidade que causa aquele espanto filosófico, mas sim uma novidade cercada de incertezas, de fragilidade e de abstinência.

Havia gente de todo o país, inclusive de fora também. O tratamento era focado principalmente na parte psicológica, com bastantes terapias em grupo e atividades físicas e recreativas. Era acompanhado também de medicamentos. Cada pessoa podia ter uma quantia de maços de cigarro por mês. Como eu morava longe, uma pessoa ficava responsável por administrar essa parte.

Conheci gente dos mais variados tipos e classes sociais, desde ex-detento até médico. Fiz amizade com um médico que estava internado devido ao seu vício em morfina. Segundo ele, trabalhava somente sob efeito da substância, inclusive realizando cirurgias. Também me aproximei de um competidor profissional de PowerLifting. Inclusive, teve um episódio bastante desagradável com esse último. Teve um dia que eu falei que queria fugir e que ia fazer alguma “besteira”. Ele, logo em seguida, avisou a equipe do hospital, que me isolou do restante do grupo e me colocou numa ala especial. Tomei uma injeção de sossega-leão e dormi por dois dias seguidos aproximadamente.

Sem mais delongas, depois de 40 dias recebi a alta. Meu pai foi me buscar na clínica e voltamos para o Espírito Santo. A partir desse momento, tive que desfazer alguns vínculos, reconstruir meu ciclo de amizades e, inclusive, terminar um namoro na época. Fiquei limpo por um bom tempo; porém, continuei fumando cigarro. Comecei a frequentar uma igreja alternativa, em que os membros se reuniam na casa do pastor. Nessa época, voltei a tocar power metal, mas dessa vez era gospel.

Entre idas e vindas, tive diversas recaídas. Fui morar em Vitória sozinho de novo. Nessa altura da vida, uma mulher que conheci na clínica (o pai dela que estava internado) veio de São Paulo para morar comigo no Espírito Santo. Contudo, com minhas constantes recaídas e noites na rua, o relacionamento foi à ruína. Sempre tive uma vida desregrada no que tange a relacionamentos/relações. Isso causou diversos traumas e marcas profundas, que me faziam recorrer às drogas na época. Era um ciclo vicioso autodestrutivo. Uma bomba atômica!

Seguindo adiante, teve uma época que eu morava em Jardim da Penha e estava viciado em cocaína e álcool. O vício era tanto que eu não saía de casa e não falava. Passei meses sem falar uma palavra sequer; às vezes falava só o necessário. Diante disso, decidi pedir ajuda aos meus pais, pois vi que a situação estava crítica demais! Só um parênteses: nessa época eu li a biografia do Kurt Cobain, intitulada de “Heavier than Heaven” (Mais pesado que o céu). Aquilo me fez tão mal que, numa sexta-feira, tomei vários medicamentos junto com drogas e só fui acordar na segunda-feira. Por pouco eu não parto dessa para o Geena (inferno).

Meus pais me buscaram e fui morar em Guriri. Por meses, vivi trancado em casa tomando Heineken, fumando cigarro e enfurnado em um quarto, no computador. Foram tempos difíceis. Lembro que eu só fumava Marlboro Red e Lucky Strike Red. Quase não conversava, vivia isolado! Algumas vezes toquei na casa de conhecidos e nas festas que aconteciam em Guriri. Teve uma em particular que misturei muitos comprimidos de Benflogin, cocaína e álcool. O resultado foi catastrófico!

Pedi para ser internado de novo. Voltei para a mesma clínica em São Paulo. O mesmo processo, só que dessa vez mais consciente de como seria o tratamento. Um fato importante de salientar é que na época em que eu cheguei na clínica, o ator Fábio Assunção tinha acabado de sair, pois na época ele estava com problemas com cocaína. Outro acontecimento também foi a chegada da cantora Vanusa, que cantou o hino nacional errado na época, ter chegado para ficar internada na clínica. Não aguentou 3 dias e pediu para sair.

Eu devia ter por volta dos 23, 24 anos. Terminado o tratamento, retornei para casa. Logo em seguida, decidi morar em Vitória de novo. Desde os meus 17 anos já morava longe de casa e dos meus pais. De novo, fiquei limpo por um tempo e depois recaí. Nessa época eu fiquei bem perdido. Usei de tudo o que pude, menos heroína, pois não encontrei. No entanto, experimentei morfina. Além dessa, usava com frequência LSD, Ecstasy, MD, em suma, de tudo!

Não satisfeito com minha vida aqui, decidi tentar a sorte na gringa. Me planejei por quase um ano e fui para Londres. Chegando lá, no aeroporto de Heathrow, na hora da entrevista fiquei nervoso e respondi uma parte em espanhol. Lembro-me da atendente falando comigo: Stay here! Pronto! Vieram dois senhores, que vasculharam minhas malas e me mandaram subir para um departamento do aeroporto. Nessa época, eu estava meio cabeludo, com um moleton preto do Black Flag e com um headphone gigante pindurado no pescoço. Em suma, subi e fiquei numa sala com um tradutor de Portugal e o entrevistador britânico. Ele fazia a pergunta olhando para os meus olhos, o português traduzia, eu respondia ao português, ele traduzia para o inglês e assim foi durante algum tempo.

Moral da história, levei um X no passaporte, tive que tirar um monte de foto igual um preso, além de pegarem minhas digitais. Fui barrado em Londres! Só conheci o aeroporto, que, por sinal, lembrava os episódios do Mr. Bean. Tive que esperar o próximo voo de volta, num local onde tinha gente do mundo todo barrada, falando em diversos idiomas ao mesmo tempo. Parecia até o Pentecostes! Brincadeiras à parte, encarei mais 12 horas de voo, cheio de revolta no coração.

Quando pisei no Brasil, não queria falar com ninguém. E o pior: estava cheio de libras para começar a me afundar. Troquei as libras por reais e vivi por um bom tempo com um fone, sem conversar com ninguém e usando muita droga! Nesse tempo, tinha parado até de tocar. Depois de muito tempo nessa decadência, um amigo meu que havia tocado comigo na adolescência me chamou para voltar a tocar numa banda cover de System of a Down. Aceitei o convite, mesmo não curtindo o som da banda.

Depois dessa oportunidade, foram surgindo outras e voltei a tocar nos lugares. Viajava bastante para tocar em cidades próximas, mesmo tocando em banda cover. A devassidão nessa época aumentou bastante. Trocava de “namorada” toda semana praticamente. Mesmo assim, vivia numa depressão intensa, um vazio existencial inexplicável. Até que numa dessas ocasiões, conheci uma mulher que veio a ser a mãe do meu filho. Começamos a morar juntos e, pouco tempo depois, ela engravidou do Antônio. Esse acontecimento me ajudou a largar a cocaína de vez!

Nesse período, passei na prova da FAMES (Faculdade de Música do Espírito Santo), no CFM Popular. Logo ingressei na banda títular, viajando para tocar no festival de Bossa e Jazz de Santa Teresa. Sim, eu tocava bossa nova e samba jazz! Não era o supra-sumo, mas passei por esses estilos musicais. Paralelo a isso, começou a aparecer muita oportunidade para tocar na noitada. Foi nessa época que eu perdi meu relacionamento, deixando meu filho ir para longe de mim.

Minha vida entrou num declínio total, onde eu vivia num ciclo vicioso de droga, mulher e noitada. As gigs foram sumindo. O pecado foi aumentando. As amizades erradas foram se infiltrando. Lembro-me de quando morava em Jardim Camburi, andar nas ruas de madrugada com um telefone no ombro, por dentro da camisa, tocando Sonny Rollins, Thelonious Monk, Bud Powell, entre tantos outros. Quem já andou pelas ruas de Jardim Camburi, na famosa laminha, sabe o risco que é!

Me encontrei, novamente, sem saída nenhuma! Sem emprego, sem banda, sem dinheiro, somente as más companhias e os péssimos hábitos, decidi ter um plano de fuga. Pedi ajuda aos meus pais para ir morar fora, só que dessa vez em Lisboa. Um conhecido meu estava lá e me encorajou a ir para lá tocar. Ele tocava no Lion Jump, uma banda de reggae renomada aqui no Espírito Santo, inclusive participou do Superstar, na Globo. Consegui ajuda e me programei dentro de um curto prazo. Fui na cara e na coragem!

Enfim, pisei em terras lusitanas! O ambiente não era recepitivo; muito pelo contrário! Não sei se foi por causa das tatuagens, ou se é porque eu tenho cara de norte-americano, mas sofri bastante preconceito e rejeição da parte dos portugueses no começo. Cheguei no hostel, guardei minhas coisas e fui para uma praça chamada Adamastor. Chegando lá, me assustei de tal forma que minha reação era voltar para o Brasil no dia seguinte. E olha que eu era muito doido na época! Era gente usando tudo, ao ar livre. Gente do mundo todo num lugar só. Só de lembrar me da vertigem!

Cheguei lá no verão, época boa para quem é músico por a mão na massa. Logo nos primeiros dias já consegui tocar, o que me animou a não desistir do país. Comecei tocando direto nos lugares, chegando a tocar três vezes ao dia algumas vezes, em lugares diferentes. Tive a oportunidade de conhecer o baixista do Ivan Lins, às 5 horas da manhã na tal praça Adamastor, ouvindo Yellowjackets e usando coisa errada. Conheci pessoas renomadas, como, por exemplo, o baterista que tocava com o Gilberto Gil no Brasil, entre outros artistas. Este, me buscava de carro em Benfica para ir aos eventos de música instrumental, assisti-lo tocar samba jazz, jazz e fusion.

Conheci também o guitarrista do Gabriel, o Pensador. Toquei com ele diversas vezes, inclusive numa dessas gigs, convidei o pastor que me evangelizou lá em Portugal. Grande Kal Robson! Kal, além de pastor, também é um músico excepcional! Tive o privilégio de tocar com ele por inúmeras vezes. Ele me buscava de carro em Benfica, com toda a bateria. Ia falando de Jesus para mim de Benfica até o local da gig. O resultado: eu ficava extremamente nervoso! Nessa época eu era praticante de uma vertente budista japonesa, conhecida como Nichiren Daishonin. Estudava bastante sobre, recitava o mantra, tinha meu lugar “sagrado” e tudo!

Não obstante, a evangelização não parou; aliás, ela foi aumentando. Teve uma noite que fomos tocar juntos em um lugar e, logo em seguida, tinha uma gig com o guitarrista do Gabriel, o Pensador. Convidei-o para tocar contrabaixo conosco. Ele ficava me observando, enquanto eu tocava o terror no lugar, nos intervalos. Mal sabia eu que havia um homem de Deus orando por mim naquele momento. Ele é pastor, mas toca música secular na noite. Mas música bem selecionada, de qualidade!

O momento ápice em Lisboa foi quando a banda que tínhamos de reggae, o Plantada, foi convidada para fazer parte do line-up no maior festival de reggae de Portugal: o Musa Festival. Inclusive, nem existe mais. Isso foi em 2018. Eram três dias de festival, com nomes do reggae global. Nesse dia, que foi o primeiro do festival, tocamos no mesmo palco em que o Alpha Blondy se apresentou. Fomos a primeira ou a segunda banda, se não me falha a memória. Tive o privilégio de conversar com ele com meu inglês nível A1 na época, e tirar uma foto com ele. Afinal, eu ouvia um CD dele na adolescência, que era do meu irmão, o “Live at Paris Zénith & Paris Bercy“. Era um sonho realizado!

Entretanto, no momento em que eu estava na bateria, e aquela arena gigantesca que não tinha fim, me veio um insight: “Foi isso que você sonhou a vida inteira? Foi para isso que você batalhou todo esse tempo?”. Ali caiu a ficha, e, voltando para casa, o vazio só aumentava. Resumindo a história, larguei o budismo, voltei a viver um estilo de vida pior do que o que vivia antes. Novamente me vi no mesmo ciclo no qual me encontrava no Brasil: droga, noitada e mulher. Eu estava profundamente deprimido!

Comecei a ter pensamentos intrusivos nada agradáveis, e já não tocava mais. Lembro-me como se fosse hoje: era novembro, inverno em Lisboa. Um frio cortante, a cidade parada. Era um domingo à noite. Fiz minha janta, totalmente sem esperança sobre o futuro. Entrei no quarto da casa que eu dividia com mais 4 pessoas, abri o YouTube para assistir algo enquanto eu jantava e apareceu um vídeo do Pr. Cláudio Duarte. Resolvi dar uma chance; afinal, não tinha mais saída. Uma ressalva: eu destestava crente! Assisti aquele vídeo e ele me fez rir no dia em que eu pensei em desistir de vez. O assunto foi sobre pornografia, algo que eu lutava bastante contra na época também. Logo em seguida resolvi assistir ao testemunho dele. Aquilo mexeu comigo de uma forma que eu não sei explicar.

Pronto! Acabou a janta, acabou o vídeo, vida que segue! Fui dormir. No outro dia, numa segunda-feira, acordei diferente, com um ânimo, uma vontade de viver. Minha lente já não era mais a mesma. Mesmo assim, abri o guarda-roupa, peguei o pote de skunk que eu tinha lotado (caro, por sinal) e tentei usar. Não conseguia mais. Peguei o pote, joguei na privada e dei descarga. Nunca mais usei nada! Continuei bebendo um pouco de vinho, mas já não me sentia bem também. Houve uma conversão genuína!

Decidi passar o Natal e o Ano Novo no Brasil, para visitar meu filho e meus pais. Pisando em São Paulo, vi que realmente as coisas mudaram. Comecei a enxergar coisas que antes não enxergava, principalmente na minha família. Eu e minha inquietação santa, decidi voltar de última hora em Janeiro para Lisboa. De volta à capital lusitana, tentei continuar tocando, mas não conseguia ficar no ambiente. Eu ficava isolado, lendo a Bíblia pelo celular. Sendo assim, decidi abandonar a música. Comecei a trabalhar de ajudante de transporte. Vi que o custo de vida não estava favorável sem a música e decidi me mudar para Leiria.

Fiz parte de uma igreja de brasileiros lá, mas, logo vendo muita coisa errada, procurei a Assembleia de Deus dos portugueses. Fui muito bem recebido. Inclusive tive a oportunidade de aconselhar um casal de portugueses. Esse mesmo que me levou ao aeroporto para retornar de vez para o Brasil, quando todas as portas se fecharam. Vi aquilo como um sinal que meu tempo ali se esgotou. Afinal, também queria ficar perto do meu filho. Trabalhei em uma empresa de louças, na qual conheci um brasileiro que me levou na CBB (Congregação Cristã no Brasil), só que em Leiria. Foi através dele que ganhei minha primeira Bíblia, de um conhecido dele.

Em suma, estava decidido a voltar para o Brasil. Voltei e a guerra começou de verdade! Não conseguia ficar em paz em casa. Fui morar em Guriri, na casa dos meus pais. Tive a fase xiita, de queimar livros, dar as camisetas de banda, queimar coisas. Jejuava de madrugada, encontrava arquivos pessoais. Muitas experiências marcantes. Todavia, sempre que tentava sair da casa dos meus pais, algo dava errado e eu tinha que retornar. Eu não tinha mais nada, inclusive para onde ir. Até que um dia, coloquei na minha mochila uns livros e algumas peças de roupas e decidi romper com minha família.

No meio dessa história toda, tentei reatar o relacionamento com a mãe do meu filho. Sem sucesso! Ela me levou para uma base missionária batista, que fica em Maruípe. Nessa época, conheci meu xará Roger Rocha, que indicou a igreja do pai dele. Era a Assembleia de Deus Hebrom, que ficava no bairro Brisamar, em Vila Velha, na época. Me recordo da noite que conversei com o Pr. Vanderlei Rocha no gabinete dele, era numa terça-feira. Eu não tinha para onde ir, ia ficar na rua. Ele decidiu me acolher e, nessa noite, eu dormi no cômodo onde estava em obra da igreja. Na quarta-feira pela manhã, já havia reunião de oração. Depois disso, fui levado para uma casa, onde estavam mais 4, 5 pesssoas.

Passei algumas semanas ali, e o Pr. Vanderlei alugou uma kitnete para mim atrás da igreja. Era um cômodo só, não tinha nada. Só um fogão velho e uma geladeira velha. Depois um irmão doou um móvel e um colchão que ficava no chão. Ali, vivi as experiências mais difícieis da minha vida. Sem emprego, sem dinheiro, sem tocar, nova criatura. Tive uma crise existencial gigantesca por causa das tatuagens, junto ao fato de eu estar acostumado com a Europa. Foi um processo árduo me readaptar à realidade brasileira. Logo depois de um tempo, fiz o curso de batismo e fui batizado pelo próprio Pr. Vanderlei Rocha.

Comçou a batalha na vida de fé!

Ainda na kitnete, conheci uma irmã que me ajudava em oração, me dava livros, Bíblia e inclusive um celular, que na época fiquei sem. Nos aproximamos, afinal não tinha mais ninguém no meu círculo de amizade. Sumiu todo mundo: o famoso deserto! Logo veio a pandemia, e eu estava muito magro e debilitado. Um psiquiatra me orientou a ficar internado numa clínica em Fundão, a Green House, para ganhar peso e me resguardar. Disse também que, se eu pegasse a COVID 19 naquelas condições, era arriscado eu vir a óbito.

Pois bem, fiquei lá por cerca de dois meses. Saindo de lá, passei um tempo em Guriri, na casa dos meus pais. Ganhei bastante peso e pude voltar para Vitória. Nessa época, morei em um apartamento em Jardim da Penha. Ficou muito fora de rota frequentar a Hebrom morando em Vitória. Tive uma conversa com o pastor na qual eu cheguei à seguinte solução: Vou tentar morar em São Paulo, se não der certo eu volto para cá! Continuei em Vitória, sem uma igreja fixa. Nesse período, rodei diversas igrejas: Batista, Church’s, Bola de Neve…

Eu estava frio na fé. Não desviei, mas estava totalmente infrutífero. Frequentava uma vez ou outra os cultos. Cheguei até fazer parte de uma igreja por um tempo, mas vi coisas bizarras que, se eu citar aqui, vai escandalizar até os incrédulos. Enfim, mais uma vez: era um domingo! Eu estava totalmente sem esperança, jogando Counter Strike à tarde, e decidi voltar à raiz. Procurei uma Assembleia de Deus no Google e fui sozinho. Na pregação, senti a testificação de que era para eu sair de onde eu estava e voltar para a Hebrom. No dia seguinte liguei para o Pr. Vanderlei e expliquei o ocorrido. Ele concordou e me ajudou a fazer a mudança, de Jardim da Penha para Vila Velha.

Dessa vez foi melhor: o apartamento era em Coqueiral de Itaparica. Voltei a ser membro da Hebrom e muitas coisas começaram a acontecer. Vou resumir a história. Comecei a namorar com a irmã da época da kitnete e logo depois de dois anos, nos casamos. Nisso, a igreja tinha mudado de bairro. Fui morar perto dela, em Jardim Colorado. Dias após a lua de mel, fui demitido do emprego. Recém-casado, desempregado! Desespero total! Me inscrevia em um curso, em outro e nada dava certo! Até que fui sendo direcionado pelo Espírito a fazer Teologia.

Como todo iniciante nos estudos acadêmicos teológicos, fiquei insurportável! Isso contribuiu bastante para a perda do casamento. Na virada do ano de 2024, meu casamento veio à falência. Fui pego de surpresa! Afinal, tive que mudar tudo: minha rotina, a igreja, o apartamento, o bairro. Me vi começando do zero de novo! O ano de 2025 foi um ano muito difícil, onde eu tive as mais profundas reflexões sobre a vida. Aliás, uma forma de vivenciar o luto do divórcio foi mergulhar na arte, na literatura e na filosofia. Deixo aqui resgistrado até um poema que escrevi durante esse período:

Quanto tempo faz que esse deserto nos traz.
Tontura, sutileza, amargura de tanta poeira.
De repente o solo mudou, era fértil e então empedrou.
Aonde vejo, o que olho são reflexos, puro ócio.
Já tentei fugir daqui, já tentei não existir.
Fiz poesia na calamidade, fui poeta da atrocidade.
O meu sangue mudou de cor, e o frio se estabilizou.
Contra o vento, me disperso, já nem sei mais o que eu quero.
Minha mente desconfigurou, minha vida perdeu o sabor.
Noite é dia, dia é pressa, já não sei o que me interessa.
Tudo aquilo que me satisfaz, hoje quero e amanhã tanto faz.
Sem sentido, certo e errado, meu clamor é que esteja ao meu lado.
Me iludi em não sentir dor, já fingi em saber o que é o amor.
Tempestade, maremoto, ser fiel me levou ao divórcio.
Já cansei, mas não desisti; já parei, mas eu quis prosseguir.
Duro ócio é esse fardo, todo dia ele está mais pesado.

Resumindo a ópera, passei por outra igreja, enfrentei diversas lutas internas etc. Foi inclusive nessa época que tive a ideia de criar um blog, postando as provas da Faculdade de Teologia. Por isso, a escrita é mais técnica.

Em linhas gerais, meus irmãos, esse é um resumo do resumo da minha história de vida. Jesus me tirou do monturo, da lama e está me reconstruindo conforme à imagem e semelhança d’Ele. Não tem sido fácil! Já vai fazer 8 anos que estou no processo intenso de viver num padrão de vida ao qual não fui criado, vivendo sempre no limite do limite. Mas, em todas as coisas, a boa mão do Senhor tem me sustentado. Espero que você que esteja lendo esse texto possa encontrar o Caminho para a vida eterna, que é Jesus! Só Ele é a verdade que liberta, a cura da alma, a paz que excede todo o entendimento. E Ele escolheu nos amar, apesar de nós!

Que Deus te abençoe fortemente!

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