O Pentecostalismo Tem Voz(es)

Por Melquesedec M. C. Damaceno1
Em várias regiões do mundo, como em solo brasileiro, o pentecostalismo, até tempos atrás, era acusado de ser um movimento em busca de uma teologia (CARVALHO, p. 202), e, nesta onda, muitos “acadêmicos” surfaram, vindo a tratar o movimento de modo, predominantemente, pejorativo. O Dr. George Campbell Morgan, um batista inglês, chegou ao ponto de dizer que o pentecostalismo era “o último vômito de Satanás” (apud, COX, p. 90), e essa foi apenas uma das coisas que disseram a respeito do movimento.
Não foram poucas as vezes em que o pentecostalismo foi desdenhado e escanteado, sendo considerado um segmento cristão excessivamente experiencial e pouco dado à intelectualidade ou até pior. O teólogo cessacionista Marcos Granconato afirmou, certa feita, que “o pentecostalismo demonstrou ser um dos maiores danos que já sobrevieram à igreja” (GRANCONATO, 2013). Isso nos mostra como o pentecostalismo foi (e é) dura e injustamente atacado, seja no âmbito religioso, seja no âmbito acadêmico.
Esse estranhamento não ficou barato e os estereótipos religiosos e acadêmicos logo foram revidados, fazendo com que muitos pentecostais passassem a difundir a percepção de que o academicismo pouco poderia contribuir para a fé e a vida espiritual da igreja. Outrossim, o estudo teológico, sistemático e formal, também sofreu, sendo enxergado com reservas, sob o temor de trazer esfriamento espiritual e institucionalização eclesiástica para o movimento, ainda mais em suas primeiras décadas.
Vários autores, como Ozean Gomes (2013) e Claiton Pommerening (2015), se dedicaram em perscrutar os motivos e razões desse fenômeno, principalmente entre os pentecostais brasileiros. Quem sofreu com tudo isso? Ambos os lados, tanto a academia quanto o pentecostalismo. Mas, certamente, o movimento pentecostal herdou maiores dores. Sim, nesta querela, feridas foram feitas e o afastamento acadêmico por parte da maioria dos pioneiros pentecostais trouxe terríveis reveses. Algo que foi sentido a médio e longo prazo, desde o início do movimento em solo tupiniquim. Uma das consequências foi a baixa produção teológica e literária a partir do próprio modus vivendi pentecostal. Muitos pentecostais, por olharem com certa desconfiança para a vida acadêmica, evitaram se introduzir nestes meandros, e os efeitos colaterais dessa decisão foram a própria escassez de material teológico produzido por mentes e vozes pentecostais.
O “produzir e pensar” teologicamente, em muitos casos, foi relegado aos paladinos evangélicos reformados. Os resultados, querendo ou não, por meio do método empírico, apareceram. David William Faupel informa que, na década de 70, muitos seminários pentecostais usavam, no treinamento de seus ministros e obreiros, muitas obras teológicas escritas, majoritariamente, por teólogos de outras tradições evangélicas, muitas vezes anti-sobrenaturalistas e excessivamente racionalistas (apud MATTOS, in: KNIGHT III, p. 15). A escassez teológica pentecostal fez o movimento ficar refém de quem produziu teologia; ou seja, a dependência doutrinária e teológica nasceu.
Só que, há cerca de duas décadas (ou mais), esse cenário no Brasil tem mudado aos poucos e já podemos ver a inserção e formação, cada vez maior, de cristãos pentecostais na vida acadêmico-teológica. Como afirma o bispo anglicano Dom Robinson Cavalcanti, “os pentecostais [têm] redescobr[ido] o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida” (2008, acréscimos nossos). Já era hora dessa importante redescoberta, e as flores têm brotado nos jardins pentecostais, mesmo a contragosto de alguns. As vozes têm se unido em glorificação ao nome de Deus e podemos dizer que Babel, de fato, tem sido revertida desde Atos 2. Hoje, as “línguas pentecostais” podem ser compreendidas, bíblica e teologicamente.
Podemos dizer que o cenário teológico pentecostal brasileiro vive um grande amadurecimento teológico e acadêmico sem precedentes. Longe da dependência do passado e da estigmatização acadêmica, o movimento, agora, tem florescido com produções literárias e acadêmicas que têm refletido a identidade e práxis do movimento, unindo o rigor teológico com a valorização da experiência e da espiritualidade carismática. O Me. César Moisés tem chamado esse momento de “primavera teológica pentecostal”2.
Sites, blogs, perfis sociais, editoras, escritores e pesquisadores do Brasil e de toda a América Latina têm se interessado cada vez mais pelos estudos sobre o pentecostalismo, seja no âmbito doutrinário, teológico, social e/ou histórico. Podemos dizer que uma compensação histórico-teológica tem sido feita, e muitas obras têm vindo a lume a cumprir esse papel. Felizmente, estamos vivendo um alvorecer teológico carismático, onde cristãos, estudiosos, teólogos, mestres e doutores de tradição pentecostal têm produzido teologia séria, robusta e acessível a partir de sua própria vivência eclesiástica, experiencial e carismática. Atualmente, podemos dizer (e com orgulho) que o pentecostalismo não precisa mais falar pela voz dos outros; ele aprendeu a falar com a sua própria voz.
Reconhecemos que o pentecostalismo não apenas possui experiência; possui também vozes teológicas próprias, maduras e capazes de produzir conhecimento sem abandonar sua identidade espiritual. A cada dia que passa, a tradição carismática-pentecostal tem chegado à maturidade teológica sem perder a sua alma espiritual.
Considerações Finais
A trajetória do pentecostalismo demonstra que um movimento marcado pela experiência com o Espírito Santo não precisa abrir mão da reflexão teológica para preservar sua identidade. Se, em seus primeiros anos, a desconfiança em relação à academia contribuiu para uma limitada produção intelectual e certa dependência de referenciais externos, o cenário contemporâneo revela um significativo processo de amadurecimento. O surgimento de pesquisadores, escritores e teólogos pentecostais tem fortalecido uma produção acadêmica comprometida tanto com o rigor científico quanto com a espiritualidade que caracteriza o movimento.
Nesse contexto, afirmar que o pentecostalismo tem voz(es) significa reconhecer que ele já não depende de interpretações alheias para expressar sua compreensão da fé, de sua história e de sua prática. Sua contribuição para a teologia cristã nasce da integração entre Palavra, Espírito e comunidade, oferecendo uma reflexão que dialoga com a academia sem renunciar à dimensão sobrenatural da experiência cristã.
Que essa crescente produção teológica continue servindo à Igreja, preservando a identidade pentecostal e demonstrando que fé, espiritualidade e investigação acadêmica não são realidades incompatíveis, mas dimensões que, quando harmonizadas, glorificam a Deus e enriquecem o testemunho cristão.
“Kai eplēsthēsan hapantes pneumatos hagiou” – “E todos foram cheios do Espírito Santo” (At 2.4).
Notas
1 Melquesedec M. C. Damaceno é pós-graduado em Ciências da Religião com ênfase em Docência do Ensino Superior (lato sensu – FAEPI). Pós-graduado em Gestão Eclesiástica (lato sensu – IPEMIG) e pós-graduado em Aconselhamento Pastoral (lato sensu – IPEMIG). Bacharel em Teologia (CORAM DEO). Está atualmente graduando em Administração (FEBRAS). É casado com Ester Damaceno, é ministro ordenado pela Assembleia de Deus – Ministério de Vespasiano/MG e atua como pastor local na AD Jardim Encantado. É autor do livro Evidências do Espírito: a fé pentecostal do Pentecostes à Rua Azusa (2025, Editora Sal Cultural).
2 Frase amplamente usada pelo mesmo em suas redes sociais.
Referências Bibliográficas
CARVALHO, César Moisés. Pentecostalismo e Pós-Modernidade. Quando a experiência sobrepõe-se à Teologia. 4ª. impressão. Rio de Janeiro: CPAD, 2023.
CAVALCANTI, Robinson. Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes. 2008. Disponível em: https://pentecostalismo.wordpress.com/2008/10/17/pseudo-pentecostais-nem-evangelicos-nem-protestantes/. Acesso em 25 de maio de 2026.
COX, Harvey. Fogo do céu: a ascensão pentecostal e a reformulação da religião no século 21. 1.ª ed. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2026.
GOMES, José Ozean. Da objeção ao reconhecimento: uma análise da política eclesiástica da Assembleia de Deus brasileira com respeito à educação teológica formal (1943-1983). Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Metodista de São Paulo: São Bernardo do Campo, 2013.
GRANCONATO, Marcos. O Pentecostalismo e seus Danos à Igreja de Deus. 2013. Disponível em: https://www.igrejaredencao.org.br/ibr/index.php?option=com_content&view=article&id=1083:o-pentecostalismo-e-seus-danos-a-igreja-de-deus-parte-1&catid=17:pastoral&Itemid=114 Acesso 25 de maio 2026.
MATTOS, Paulo Ayres. In: KNIGHT III, Henry H. De Aldersgate a Azusa: Visões de uma Nova Criação, Wesleyana, Pentecostal e de Santidade. Maceió: Editora Sal Cultural, 2018.
POMMERENING, Claiton. Fábrica de Pastores: interfaces e divergências entre educação teológica e fé cristã comunitária na teologia pentecostal. Tese (doutorado em Teologia). Faculdades EST: São Leopoldo, 2015.
VANHOOZER, Kevin J.; STRACHAN, Owen. O pastor como teólogo público: recuperando uma visão perdida. Trad.: Márcio L. Redondo. 1.ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2016.

