Gravura de Gustave Doré retratando a fome em Samaria, cenário do relato dos quatro leprosos em 2 Reis 7

“Por que Ficamos Aqui Sentados até Morrermos?”: Fé, Ação e Providência Divina a partir de 2 Reis 7.3-11

A Fome em Samaria, Gustave Doré, c. 1866

“A ação move o coração de Deus.” Esse jargão é bastante popular no meio evangeliquês e, com certeza, você já deve tê-lo ouvido por aí. Além de não encontrar respaldo bíblico claro, soa como uma espécie de semipelagianismo disfarçado de fé com ousadia. No entanto, o episódio que será abordado neste texto mostra a importância da ação (ou reação) diante das intempéries da vida, como foi o caso dos quatro leprosos à porta da cidade.

Para entendermos melhor o contexto, voltaremos ao capítulo anterior, em que se constata o estado caótico que o povo vivenciara de fome em Samaria, a ponto de haver episódios de canibalismo. A Bíblia relata que uma mãe fizera um acordo com outra mulher, segundo o qual tinha que cozer o próprio filho para se alimentar, e depois seria a vez da outra, que sumiu. Além disso, a situação era tão precária que uma cabeça de jumento custava oitenta siclos de prata, e duzentos gramas de esterco de pomba custavam cinco siclos de prata. É importante frisar que o jumento era animal imundo pela Lei mosaica, e a cabeça era a parte menos aproveitável.

Neste contexto, no começo do capítulo 7, o profeta Eliseu proclama uma profecia vinda direta do Senhor:

Então, disse Eliseu: Ouvi a palavra do SENHOR; assim diz o SENHOR: Amanhã, quase a este tempo, uma medida de farinha haverá por um siclo¹, e duas medidas de cevada, por um siclo, à porta de Samaria (2Rs 7.1).

Parafraseando o profeta: seria como se, no dia seguinte, naquele mesmo horário, a picanha custasse dez reais e o contrafilé, cinco reais. Em reação à profecia de Eliseu, o capitão, braço direito do rei (provavelmente o rei Jorão, filho de Acabe), contraria o profeta:

Porém um capitão, em cuja mão o rei se encostava, respondeu ao homem de Deus e disse: Eis que, ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poder-se-ia fazer isso? E ele disse: Eis que o verás com os teus olhos, porém daí não comerás (2Rs 7.2).

Em contrapartida, havia quatro leprosos² na porta da cidade, provavelmente isolados. A comunicação deles se dava por meio de gritos, pois não podiam se aproximar dos demais. Estima-se, portanto, que não ouviram e não tinham conhecimento da profecia do profeta Eliseu. A situação deles era de sobrevivência alarmante; não havia espaço para apatia. Desse modo, depois de chegarem a uma conclusão, tomaram uma atitude que poderia lhes custar a vida:

E quatro homens leprosos estavam à entrada da porta, os quais disseram uns aos outros: Para que estaremos nós aqui até morrermos? Se dissermos: Entremos na cidade, há fome na cidade, e morreremos aí; e, se ficarmos aqui, também morreremos; vamos nós, pois, agora, e demos conosco no arraial dos siros; se nos deixarem viver, viveremos, e, se nos matarem, tão somente morreremos (2Rs 7.3-4).

Deus é soberano e não depende de nada e de ninguém para agir em prol de uma causa impossível ou realizar um milagre. Todavia, há decisões que devem partir do homem. Alguns exemplos claros na Bíblia: Jesus transformou água em vinho. Só Ele tinha esse poder, mas quem fez o procedimento da talha foi o homem. Ele curou o paralítico, mas deu a ordem: “Levanta-te e anda”. Ele multiplicou pães e peixes, porém quem providenciou os alimentos foram dois discípulos. Há ainda o caso de Lázaro. Para todos, Lázaro jazia no leito de morte; para Jesus, ele apenas dormia. Já haviam passado quatro dias; o defunto cheirava mal. Jesus é o único que tem o poder de ressuscitar mortos; contudo, cabe ao homem a tarefa de tirar a pedra e desenfaixar o defunto fedido.

Esse é o princípio que o apóstolo Paulo resume:

De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.12–13).

A ação é nossa; a obra é d’Ele.

A fé move o sobrenatural — não porque arranque algo de Deus, mas porque Deus, que já decretara a vitória pela boca de Eliseu, quis agir por meio da ação dos seus. Assim, aqueles quatro improváveis e desprezados, ao se levantarem, viram o Senhor mudar a atmosfera, alterando a audição do exército da Síria e concedendo a vitória sem armas e sem batalhas:

E levantaram-se ao crepúsculo, para irem ao arraial dos siros; e, chegando à entrada do arraial dos siros, eis que não havia ali ninguém. Porque o Senhor fizera ouvir no arraial dos siros ruído de carros e ruído de cavalos, como o ruído de um grande exército; de maneira que disseram uns aos outros: Eis que o rei de Israel alugou contra nós os reis dos heteus³ e os reis dos egípcios, para virem contra nós (2Rs 7.5–6).

Sobre o caráter milagroso do evento, comenta Rawlinson:

Como o ruído foi produzido, é impossível dizer. As causas naturais são insuficientes, e o autor evidentemente entende o evento como milagroso: “O Senhor fizera o exército dos siros ouvir um ruído”, etc (RAWLINSON, 1909, p. 148–149).

Ao adentrarem o arraial dos inimigos, não havia ali ninguém, pois todos haviam abandonado o território após a manifestação do poder de Deus. Diante desse cenário, os leprosos, que outrora estavam entre a vida e a morte, doravante se encontravam em fartura. A narrativa diz que eles entravam de tenda em tenda, fartavam-se das melhores iguarias e guardavam para si tesouros preciosos e vestes, de modo que sobrava em abundância, ainda que fossem apenas quatro. Mas a bênção retida logo lhes pesaria na consciência.

Poucos momentos antes, eles questionavam qual atitude deviam tomar para sobreviver. Estavam em estado de urgência. Bastou um ato de coragem, somado à fé, para vivenciarem a melhor fase da vida deles. Porém, eis que surge um pensamento em meio ao milagre:

Então, disseram uns para os outros: Não fazemos bem; este dia é dia de boas-novas, e nos calamos; se esperarmos até à luz da manhã, algum mal nos sobrevirá; pelo que agora vamos e o anunciemos à casa do rei (2Rs 7.9).

Não era suficiente usufruir do milagre enquanto os seus compatriotas padeciam de necessidades em sua terra natal. Era dia de boas-novas! Contribuindo para o entendimento desse conceito, Edesio Sánchez comenta:

A palavra que se usa aqui para boas notícias (7.9; besoráh) é a mesma que o profeta Isaías usará para anunciar a vitória do SENHOR sobre a opressão babilônica, e para proclamar a chegada do ano da graça e do perdão (Is 40.9; 41.27; 52.7). Os leprosos se tornaram profetas; não é o rei nem são os arautos que anunciam a boa-nova (SÁNCHEZ CETINA, 2022, p. 482–483).

No período do Antigo Testamento, o conceito de justiça estava relacionado à ordem estabelecida por Deus, à retidão nas relações e à harmonia da vida comunitária, envolvendo aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos. Esse senso despertou naqueles quatro improváveis, excluídos e marginalizados aos olhos da sociedade. Aqui se aplica uma lição poderosa concernente à prosperidade que vem de Deus. Fazendo uma analogia com a hidrografia do território palestino: o rio Jordão nasce ao norte, no sopé do monte Hermom, e desce abastecendo o famoso mar da Galileia — um lago de água doce, cheio de vida e de peixes. Este continua o fluxo, repartindo suas águas rumo ao deserto da Judeia. Entretanto, o último mar, que recebe essas águas, não transborda e não participa do fluxo contínuo; pelo contrário, ele só retém. Adivinha o nome desse mar? Isso mesmo: o Mar Morto!

Em resumo, o texto continua e o desfecho da história é o povo se deleitando no arraial dos sírios, saindo de um extremo ao outro: da fome e escassez à fartura e bonança. A multidão era tanta que o fluxo de movimentação estava desordenado. Voltando ao versículo dois, em que o capitão do rei duvidou da profecia de Eliseu, ele estava à porta da cidade para apaziguar aquele alvoroço todo e, em meio a esse movimento, foi atropelado pelo povo e, consequentemente, morto. Assim, cumpriu-se a profecia: “Eis que o verás com os teus olhos, porém daí não comerás” (2Rs 7.2b).

Portanto, estimado irmão, que venhamos a aprender com as lições dessa passagem, lições valiosas para nossa vida como um todo. Que nunca duvidemos da palavra que vem da parte de Deus para nossa vida. Devemos confiar incondicionalmente; no entanto, não devemos apenas confiar e cruzar os braços: temos que agir! Assim como os leprosos, que tinham todos os motivos para se entregar ou murmurar, no estado de emergência entre a vida e a morte, tomaram a decisão de reagir. A partir dessa decisão, vivenciaram o maior milagre de suas vidas. E, por fim, quando o milagre chegar, não o retenha! Seja um portador de boas-novas. A verdadeira prosperidade é aquela que transborda para os outros. O salmista já dizia: “se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” (Sl 62.10b). Uma atitude, uma fé: um resultado extraordinário! Que a fé e a ação possam sempre caminhar de mãos dadas.


Notas

¹ SICLO — A unidade básica de peso, estimada em cerca de 11,3 gramas. O siclo é usado nas Escrituras quase exclusivamente em contextos que tratam de valor monetário: seja prata, ouro, cevada ou farinha, a avaliação em siclos atribui à mercadoria um valor relativo na economia (ELWELL; BEITZEL, 1988, p. 2137).

² LEPROSO — pessoa atacada pela doença da lepra, 2Rs 7.8; Mt 10.8. O leproso não podia relacionar-se com pessoas sãs, nem entrar no santuário; e deveria gritar de longe: “imundo, imundo”, sempre que alguém se aproximasse dele, Lv 13.45; Lc 17.12,13. Era considerado como morto, Nm 12.12. Se a lepra aparecesse mais escura e não tivesse crescido sobre a cútis, o sacerdote o declarava limpo, Lv 13.6,12,13. Entendem alguns expositores que, quando a moléstia apresentava sintomas de estar ativa, a lei declarava o enfermo poluto; e quando declinava com tendências à cura, perdia o caráter de maldição divina de que era expoente. Outros entendem que o leproso atacado pela moléstia em todo o corpo, como tipo do pecado, podia ser admitido aos privilégios da expiação. Outros intérpretes acreditam que a rápida manifestação da lepra em todo o corpo era sintoma de que a crise havia passado, e de que a cura se aproximava (DAVIS, 2005, p. 742).

³ HETEU / HITITA — O termo heteu ou hitita (esta última é a forma que lhe dão os estudiosos seculares) deriva-se de chittiy, que designa os descendentes de Cheth, de onde se deriva o termo português «heteu». Essa palavra, cheth, significa «terror». Só podemos pensar que essa palavra referia-se ao terror que tribos selvagens impunham sobre os seus vizinhos, embora a razão para tal nome nos seja desconhecida (CHAMPLIN, 2013, p. 143).


Referências

CHAMPLIN, R. N. Hititas, Heteus. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia & Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2013.

DAVIS, John. Leproso. In: Novo Dicionário da Bíblia. Trad. J. R. Carvalho Braga. São Paulo: Hagnos, 2005.

ELWELL, Walter A.; BEITZEL, Barry J. Weights and Measures. In: Baker Encyclopedia of the Bible. Grand Rapids: Baker Book House, 1988.

RAWLINSON, George. 2 Kings. The Pulpit Commentary. Ed. H. D. M. Spence-Jones. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909.

SÁNCHEZ CETINA, Edesio. 2 Reis. In: PADILLA, C. René et al. (org.). Comentário Bíblico Latino-Americano. Trad. Cleiton Oliveira et al. São Paulo: Mundo Cristão, 2022.

SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. Almeida Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

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