Fides Reformata: ler quem discorda, na melhor versão
Há um preconceito que atrapalha muito estudante brasileiro: o de só ler dentro da própria tribo. O pentecostal lê pentecostal, o batista lê batista, o presbiteriano lê presbiteriano, e todos perdem.
A Fides Reformata é um bom lugar para romper esse hábito. É a revista do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, ligado à Universidade Presbiteriana Mackenzie, e disponibiliza seus volumes integralmente em PDF, sem cobrar nada.
O que é a Fides Reformata
Publicação acadêmica gratuita do CPAJ, semestral, em circulação desde 1996. Ao consultar o acervo hoje encontra-se o volume 31, de 2026, ou seja, trinta anos ininterruptos, o que no cenário brasileiro é longevidade rara para uma revista teológica.
Está indexada na ATLA Religion Database, além de Latindex e da Fuente Académica da EBSCO. Os volumes ficam na página do CPAJ como arquivos PDF completos, número a número, com a paginação original preservada.
Convém notar que a interface não é moderna, e a navegação exige alguma paciência. Por outro lado, ela é honesta — o conteúdo está inteiro, sem cadastro, sem paywall e sem período de embargo.
De onde vem essa tradição
O nome já anuncia o programa. Fides reformata (fé reformada) remete à convicção que organiza toda a tradição presbiteriana: a de que a Escritura interpreta a si mesma e que a teologia deve ser continuamente reformada segundo a Palavra.
O CPAJ nasceu como braço de pós-graduação de uma denominação com forte tradição intelectual e com a convicção (herdada de Genebra e de Princeton) de que pastor se forma com línguas originais, história e sistemática, não apenas com prática ministerial.
É esse compromisso que explica a consistência da revista ao longo de três décadas. Não é publicação de ocasião: é instrumento de um projeto de formação.
O ganho específico para a teologia bíblica
A tradição reformada desenvolveu, mais do que qualquer outra, a teologia bíblica da aliança, a leitura que organiza a Escritura pelo desdobramento dos pactos, de Adão a Cristo. É dela que vêm Geerhardus Vos e a linha que hoje se estende até Gentry e Wellum.
Vale entender por que isso é relevante mesmo para quem não é reformado. A pergunta central da teologia bíblica é: como a Escritura se organiza como um todo? Qualquer resposta séria precisa dizer algo sobre a relação entre os Testamentos, e a teologia da aliança é a resposta mais elaborada que o protestantismo produziu.
Não obstante minhas discordâncias em pontos importantes (sobretudo em pneumatologia e na questão dos carismas), é preciso reconhecer: quando se trata dessa pergunta, essa tradição fez a lição de casa com um rigor que o pentecostalismo ainda não alcançou.
Ler quem discorda, na melhor versão, é exigência de honestidade intelectual. Aliás, é o único caminho para argumentar bem: quem só conhece a caricatura do adversário não sabe defender a própria posição.
Método: como ler com proveito e sem ingenuidade
Ler fora da própria tradição exige técnica, ou vira apenas irritação. Cinco procedimentos que uso.
Primeiro, separe o método da conclusão. É perfeitamente possível aprender a técnica de leitura canônica de um autor sem assinar embaixo da sua escatologia. A ferramenta e o resultado são coisas distintas, e confundi-los é o que produz leitores sectários.
Segundo, rastreie continuidade e descontinuidade. Ao ler qualquer artigo, pergunte: este autor acentua o que liga os Testamentos ou o que os separa? É nesse ponto que se decide quase tudo em teologia bíblica: inclusive o que se dirá depois sobre a igreja, sobre Israel e sobre os dons.
Terceiro, identifique o interlocutor. Artigos de revista confessional costumam responder a alguém, mesmo sem nomear. Descobrir contra quem o autor escreve revela pressupostos que o texto não declara, e isso vale tanto para a Fides Reformata quanto para qualquer revista da minha própria tradição.
Quarto, anote as duas colunas. Leia com caneta e registre, lado a lado, o que convence e o que você recusa, com o motivo. Esse caderno vale mais para a sua formação do que dez leituras confortáveis, porque força você a articular a discordância em vez de apenas senti-la.
Quinto, cite com precisão. Os PDFs preservam a paginação original, então registre volume, número, ano e páginas. Citar bem um autor com quem se discorda é sinal de maturidade acadêmica; citar mal é o atalho de quem quer vencer sem discutir.
O convite
Em conclusão, indico a Fides Reformata precisamente por ela não ser da minha tradição. Um pentecostal que só leu pentecostais não sabe onde as próprias teses são frágeis, porque nunca as viu sob pressão.
Baixe um volume recente, escolha um artigo sobre aliança ou sobre a unidade da Escritura, e leia inteiro: sem pular para a conclusão. Depois faça o exercício inverso: procure, na produção pentecostal, um texto que responda àquele argumento. Se não encontrar, você acaba de descobrir um tema de pesquisa.

