Didaskalia: a melhor patrística em língua portuguesa está em Portugal
Há um ponto cego curioso na pesquisa teológica brasileira: escrevemos em português, lemos em português, mas raramente lemos Portugal. Buscamos bibliografia em inglês, resmungamos com o alemão, e ignoramos uma produção rigorosa escrita na nossa própria língua, do outro lado do Atlântico, em acesso aberto.
A revista Didaskalia, da Universidade Católica Portuguesa, é o exemplo mais evidente desse desperdício. Ela é, na minha avaliação, o melhor lugar para ler patrística em língua portuguesa hoje, e a maior parte dos estudantes brasileiros nunca ouviu falar dela.
O que é a Didaskalia
Publicada pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, é a revista teológica portuguesa de maior tradição. O acesso é livre no portal de revistas da universidade — sem assinatura, sem cadastro obrigatório, sem embargo temporal.
O nome vem do grego διδασκαλία (didaskalía), “ensino”, “doutrina”, o mesmo termo que aparece em 1Timóteo 4.13, quando Paulo manda Timóteo aplicar-se à leitura, à exortação e ao ensino. Escolher esse nome é declarar um programa: a revista se entende como continuidade daquele mandato.
A rede das três revistas
A Didaskalia não está sozinha. A Universidade Católica Portuguesa mantém três periódicos complementares, e conhecer os três multiplica o alcance de quem pesquisa em português:
- Didaskalia: teologia em sentido pleno, incluindo patrística e história do dogma.
- Humanística e Teologia, do Porto: cruza teologia, filosofia e estudos clássicos, precisamente a combinação que a patrística exige.
- Lusitania Sacra: história religiosa com método historiográfico apurado.
Convém observar a divisão de trabalho: quem procura análise de um texto patrístico vai à Didaskalia; quem precisa do contexto filosófico antigo, à Humanística e Teologia; quem investiga instituições e memória religiosa, à Lusitania Sacra.
Por que ela importa a quem estuda os Pais
Por uma razão de formação. A teologia portuguesa está inserida no circuito europeu — os autores que ali publicam dialogam diretamente com a produção francesa, italiana e alemã, e frequentemente citam as edições críticas no original: Sources Chrétiennes, Corpus Christianorum, Migne.
Não obstante, escrevem em português. Desse modo, o leitor brasileiro recebe algo raro: rigor de escola europeia sem barreira linguística. Quem ainda está construindo o latim e o grego (como é o meu caso) encontra ali um degrau intermediário precioso entre a divulgação e a literatura técnica estrangeira.
Há ainda um ganho de perspectiva. A teologia portuguesa carrega uma relação longa com a patrística latina e com a tradição monástica peninsular que a academia brasileira, mais jovem, não tem. Ler Portugal é ler uma memória que nos pertence e que nós não preservamos.
Método: como usar o acervo
Primeiro, busque por nome de autor antigo, não por termo genérico. Procure Agostinho, Orígenes, Ireneu, Crisóstomo. O vocabulário conceitual do autor raramente coincide com o seu; o nome próprio é comum a ambos.
Segundo, navegue por volume. Revistas portuguesas organizam dossiês temáticos, e um número inteiro dedicado a um assunto rende mais que dez artigos avulsos encontrados por busca.
Terceiro, colha as edições citadas. Ao ler um artigo, anote qual edição crítica o autor usa. Essa informação é um mapa: mostra o que é padrão na área e poupa você de citar uma tradução vitoriana quando existe uma edição moderna.
Quarto, respeite a grafia. Ao citar, registre revista, volume, número, ano e páginas, e mantenha a grafia portuguesa dos títulos. Nunca “abrasileire” o título de um artigo alheio, a referência precisa bater com o original para que o leitor a encontre.
Quinto, cruze com a BDTD. Encontrou um tema que interessa? Veja se há tese brasileira sobre ele. A combinação de um artigo português com uma tese brasileira dá dois olhares sobre o mesmo objeto, em português, de graça.
Atravesse o Atlântico
Em síntese, quem lê português tem acesso gratuito a uma produção de primeira linha e simplesmente não a utiliza. Não por dificuldade — por desconhecimento. É um dos poucos problemas de pesquisa que se resolve com um clique e o hábito de voltar.
Sugiro um exercício concreto: escolha o Pai da Igreja sobre o qual você mais gostaria de escrever, procure o nome dele na Didaskalia e leia o artigo mais recente que aparecer. Compare com o que se diz sobre ele nos manuais que circulam por aqui. A diferença de profundidade costuma ser reveladora.

