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Aspectos Soteriológicos na Perspectiva Pentecostal

Roger Oliveira de Mattos¹

RESUMO

Este texto procura abordar a doutrina da salvação do ponto de vista da teologia pentecostal, tendo em vista que a soteriologia diverge de acordo com a corrente teológica (Calvinismo, Arminianismo, Luteranismo). Na teologia pentecostal, o viés soteriológico é o arminiano-wesleyano, cuja graça de Deus pode ser resistida e cuja expiação de Cristo na cruz é ilimitada; ou seja, a salvação é oferecida a toda a humanidade. A análise tem como base a doutrina da justificação pela fé, apresentada pelo apóstolo Paulo. Define-se como pentecostalismo a teologia com ênfase na atuação do Espírito Santo; em outras palavras, uma teologia na qual a pneumatologia tem maior destaque, assim como os dons espirituais. Contudo, a graça salvífica é obtida por meio da fé, e o indivíduo pode corresponder a esta graça ou resistir a ela, o que é definido como livre-arbítrio.

Palavras-chave: Pentecostalismo; Soteriologia; Arminianismo.

RESUMEN

Este texto busca abordar la doctrina de la salvación desde la perspectiva de la teología pentecostal, considerando que la soteriología diverge de acuerdo con la doctrina teológica (calvinismo, arminianismo y luteranismo). En la teología pentecostal, el enfoque soteriológico es arminiano-wesleyano, según el cual la gracia de Dios puede ser resistida y la expiación de Cristo en la cruz es ilimitada; es decir, la salvación está disponible para toda la humanidad. El análisis se fundamenta en la doctrina de la justificación por la fe, presentada por el apóstol Pablo. Se define el pentecostalismo como una teología con énfasis en la actuación del Espíritu Santo; en otras palabras, una teología en la que la pneumatología adquiere mayor relevancia, así como los dones espirituales. Sin embargo, la gracia salvífica se obtiene por medio de la fe, y el individuo puede aceptar esta gracia o resistirse a ella, lo cual se conoce como libre albedrío.

Palabras clave: Pentecostalismo; Soteriología; Arminianismo.

ABSTRACT

This paper seeks to examine the doctrine of salvation from the perspective of Pentecostal theology, considering that soteriology varies according to theological traditions such as Calvinism, Arminianism, and Lutheranism. In Pentecostal theology, the soteriological perspective is predominantly Arminian-Wesleyan, according to which the grace of God may be resisted and Christ’s atonement on the cross is unlimited; that is, salvation is available to all humanity. The analysis is grounded in the doctrine of justification by faith as presented by the Apostle Paul. Pentecostalism is understood as a theological tradition that emphasizes the work of the Holy Spirit; in other words, a theology in which pneumatology and the manifestation of spiritual gifts receive greater prominence. Nevertheless, saving grace is received through faith, and the individual may either respond to or resist this grace, a concept commonly associated with free will.

Keywords: Pentecostalism; Soteriology; Arminianism.

INTRODUÇÃO

O ato de Jesus Cristo ser crucificado para a salvação da humanidade é o cerne de toda a Escritura Sagrada. Por meio de Seu sangue derramado na cruz do Calvário, é concedida a redenção dos pecados de todo aquele que confessa Jesus como Senhor e se arrepende de seus pecados.

No entanto, a salvação decorre da graça divina, e o homem não pode alcançá-la por seus próprios méritos. O ser humano, porém, pode escolher aceitar a graça salvífica ou rejeitá-la. O tema perpassa todo o Novo Testamento, principalmente nas cartas paulinas, em que a doutrina da salvação é explicada de forma sistemática.

A partir da teologia paulina, será abordado o tema proposto; porém, com um viés pentecostal da doutrina da salvação. Também serão abordadas, de forma sucinta, as três cartas nas quais Paulo discute a doutrina da justificação pela fé.

1. A doutrina da salvação

Segundo o doutor Pommerening (2017, p. 9) “A palavra salvação em latim é composta por salvare (tornar seguro) e por salus (boa saúde, ajuda). Disso, é oriundo o cumprimento latino ‘salve’ como um desejo de boa saúde”. Afirma também que “O sentido original de salvação (de salvus, ‘curado’) pode ser interpretado como cura”.

Após a queda de Adão, o homem perdeu sua comunhão com o Criador, e toda a humanidade herdou a natureza pecaminosa. A humanidade encontra-se em estado de enfermidade espiritual e nada pode fazer para que encontre a cura e a salvação para sua alma. Esse estado é conhecido, na tradição reformada, como depravação total. Na tradição arminiano-wesleyana, entende-se que Deus concede ao ser humano a chamada graça preveniente, que o capacita a responder livremente ao chamado salvífico, mesmo estando afetado pelo pecado.

Como solução, Deus elaborou um plano perfeito, entregando Seu Filho unigênito para morrer pela humanidade a fim de restaurar a comunhão que outrora fora perdida no Jardim do Éden. Jesus Cristo é o Messias que veio inicialmente ao povo de Israel, porém eles não O reconheceram. Ele padeceu em uma cruz como ato de salvação, e, por meio do Seu sangue, lava os pecados de todos os que creem em Cristo.

A obra da salvação é uma doutrina crucial da teologia, que se denomina soteriologia.

Pommerening relata em seu livro A obra da Salvação que:

Salvação tem origem também na palavra grega sóter. O vocábulo “soteriologia” é um termo teológico composto por duas palavras gregas: sōtēria que significa “salvação, cura, recuperação, redenção, remédio, bem-estar”, e do substantivo logia, cujo significado primário é ‘estudo, tratado ou ensino’. Em sentido literal, soteriologia é “o estudo, ensino, ou tratado acerca da salvação”.

(POMMERENING, 2017, p. 10).

A soteriologia começou a ser desenvolvida desde os primeiros séculos da Igreja, especialmente a partir dos debates teológicos dos séculos II ao V d.C. Agostinho de Hipona destacou-se como um dos principais teólogos a elaborar a doutrina da salvação, sobretudo em relação à graça, ao pecado e à predestinação. Seu pensamento exerceu profunda influência ao longo da história da Igreja e no desenvolvimento da teologia ocidental, impactando posteriormente reformadores como Martinho Lutero e João Calvino. Entretanto, com o advento de um teólogo chamado Jacobus Arminius, um holandês de linha reformada, a soteriologia passou a assumir novos contornos teológicos a partir do momento em que ele decidiu contrapor a visão predominante da época, fortemente influenciada pelo calvinismo.

Ademais, a visão soteriológica de Arminius é o pilar da dinâmica da salvação na teologia pentecostal, que será detalhada mais adiante. De forma resumida, uma das principais distinções refere-se à compreensão da graça, que, segundo Calvino, é irresistível; o livre-arbítrio, no qual o ser humano responde à graça divina, o que se denomina sinergismo; e a expiação ilimitada, pois, para o calvinismo, Deus já predestinou os eleitos, e, com isso, somente aqueles previamente eleitos por Deus serão salvos.

2.  A justificação pela fé segundo o Apóstolo Paulo

No período neotestamentário, a doutrina da salvação é desenvolvida de forma bem detalhada pelo apóstolo Paulo em suas cartas, principalmente nas cartas aos Romanos, aos Gálatas e aos Efésios.

Na carta aos Efésios, Paulo descreve:

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.

(Ef 2.8-10).

O ato da salvação vem somente pela fé em Cristo como único Salvador; nesse ato, o cristão recebe a graça de Deus. Antonio Gilberto, ao refletir sobre este ato de salvação na obra Teologia Sistemática Pentecostal, afirma:

A salvação é pela graça de Deus, e não por nosso esforço próprio, conquanto os salvos sejam chamados para a prática das boas obras.

(GILBERTO, 2023, p. 338).

A partir do momento em que o crente recebe a salvação, ele faz boas obras pelo fato de ser salvo, e não é salvo porque faz boas obras ou as faz para conquistá-la.

O termo justificação, segundo descreve Myer Pearlman (2009, p. 221), “é um termo forense que nos faz lembrar um tribunal. O homem, culpado e condenado perante Deus, é absolvido e declarado justo — isto é, justificado”.

O ser humano se encontra em estado de condenação por consequência do pecado original, e essa sentença só é anulada por intermédio da obra salvífica de Cristo na cruz, que o declara justo novamente.

Na carta aos Gálatas, o tema percorre todo o contexto no qual os judaizantes estavam colocando em dúvida a veracidade do apostolado de Paulo e obrigando os gentios convertidos a adotarem práticas do judaísmo, mesmo tendo aceitado a Cristo como Salvador. Com isso, estavam dizendo que somente a graça não era considerada suficiente, que era preciso das obras da lei para se justificarem. Paulo é enfático em relação a isso:

Sabendo, todavia, que o homem não é justificado por obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, nós também cremos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada.

(Gl 2.16).

Em sua carta aos Romanos, por exemplo, o embate é semelhante; porém, ele aplica sua doutrina para inserir os gentios na igreja junto aos cristãos judeus, colocando-os em pé de igualdade. Nesta carta, ele discorre sobre a doutrina da justificação pela fé e dá como exemplo o patriarca Abraão, afirmando que ele foi justificado pela fé no Antigo Testamento.

Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.

(Rm 3.28).

Assim, chega-se à conclusão de que o apóstolo dos gentios tinha sua teologia firmada na salvação pela graça somente, mediante a fé, e não por meritocracia.

3. O que é o pentecostalismo

Segundo o teólogo pentecostal Gutierres Siqueira:

O pentecostalismo é uma força evangélica e cristã cujo papel é o resgate da Pessoa do Espírito Santo na condução da Igreja. Não é a criação de uma novidade, mas a lembrança de uma antiga verdade: o Espírito Santo está nesta terra para trabalhar pela e na Igreja.

(SIQUEIRA, 2017, p. 14).

A pneumatologia é uma doutrina bastante estimada na teologia pentecostal. No pentecostalismo, é o Espírito Santo que capacita os crentes para a obra missionária e faz com que toda boa obra seja realizada para glorificar a pessoa de Jesus Cristo.

Segundo Stanley Horton (2021, p. 44): “Os pentecostais possuem uma rica herança no âmbito da experiência, demonstrando convicções fervorosas no tocante a sua fé”.

A teologia pentecostal tem como ênfase a experiência que é proporcionada pela comunhão com o Espírito Santo, que faz com que a fé seja viva, e não uma fé meramente intelectual.

3.1 A obra salvífica no pentecostalismo

É importante frisar que o pentecostalismo é oriundo da tradição protestante, sobretudo da herança wesleyana. Contudo, no que tange à questão soteriológica, apresenta algumas distinções em relação ao protestantismo clássico. Embora Jacobus Arminius fosse reformado, como havia sido dito anteriormente, sua visão a respeito da salvação diferenciou-se da tradição calvinista. Ele questionou a doutrina da predestinação e da eleição de João Calvino, apresentando seus argumentos acerca desses temas.

Por isso, historicamente houve associações por parte dos reformados de que os pentecostais seriam hereges por seguirem uma linha teológica pelagiana. Pelágio foi um teólogo britânico do século IV que foi considerado herege por vários concílios da igreja, mas principalmente pelo Concílio de Cartago, em 418 d.C. O motivo foi sua doutrina em relação ao pecado original, na qual ele negava a participação do homem nele, e sua visão sobre a salvação, na qual defendia que os seres humanos podiam alcançá-la sem a intervenção da graça divina.

No entanto, sabe-se que este não corresponde à compreensão doutrinária dos pentecostais. Aliás, no pentecostalismo, a graça de Deus é o único meio de ser salvo, e as boas obras são apenas uma evidência de que a pessoa foi salva de fato. Contudo, é verdade que, para o pentecostal, o cristão pode perder a salvação, como no caso de apostasia.

Na soteriologia reformada, que teve como porta-voz João Calvino, a salvação é entendida como irrevogável. Existem outras diferenças, mas essa é a que mais causa desentendimentos no meio evangélico. Segundo ele, o crente eleito perseverará até o fim, sem possibilidade de abandonar a fé ou viver uma vida de pecado, o que é conhecido como perseverança dos santos.

Além disso, afirma-se também que a graça é irresistível e, uma vez que Deus escolhe o homem, Ele responde por ele, o que se denomina monergismo. Algumas vertentes mais radicais dentro do calvinismo defendem que todos os acontecimentos estão subordinados à soberania divina, inclusive a permissão do mal.

O pentecostal, por sua vez, defende a posição arminiana-wesleyana, na qual o homem pode decidir aceitar ou não ser um discípulo de Cristo, e que toda a humanidade tem direito à salvação. Defende também que o homem pode, sim, perder sua salvação, seja por apostasia ou por optar por afastar-se da comunhão com Deus, de modo a desagradar ao Espírito Santo e extingui-lo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra da salvação é somente pela graça, por meio da fé, e foi consumada pela morte e ressurreição de Cristo Jesus. Independentemente das diferenças doutrinárias, ambos coadunam com a concepção de que a salvação é pelo plano perfeito de Deus, ao entregar seu Filho para salvar a humanidade. Embora na linha reformada se defenda que Jesus morreu por um grupo específico de eleitos e o arminianismo defenda que o sacrifício de Cristo é por toda a humanidade, não há nada que o homem possa fazer para se salvar pelos próprios méritos.

O fato de que a pessoa pode perder a salvação impulsiona o crente, no pentecostalismo, para uma vida de piedade e compromisso cristão. Com o auxílio do Espírito Santo, a Igreja avança por todo o mundo com o propósito de realizar missões e evangelizar. Desse modo, experimenta-se uma espiritualidade dinâmica, a fim de perseverar na fé para vencer o poder do pecado. Sabe-se que o inimigo veio para matar, roubar e destruir; contudo, Cristo veio para dar vida, e vida em abundância. Além disso, veio para desfazer as obras do mal e conceder salvação a todo aquele que N’Ele crê.

REFERÊNCIA

BÍBLIA, Sagrada. Almeida Revista e Atualizada. São Paulo – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

GILBERTO, Antonio. Teologia Sistemática Pentecostal: Soteriologia. Rio de Janeiro – RJ: CPAD, 2023.

HORTON, Stanley.   Teologia Sistemática Pentecostal: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro – RJ: CPAD, 2021.

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia 3. Ed. São Paulo – SP: Vida, 2009.

POMMERENING, Claiton Ivan. A Obra da Salvação: Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Rio de Janeiro – RJ: CPAD, 2017.

SIQUEIRA, F. Gutierres. Revestidos de Poder: Uma introdução à Teologia Pentecostal. Rio de Janeiro – RJ: CPAD, 2017.

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